Sabemos que falar em desigualdade entre homens e mulheres é quase uma heresia visto que isso “já não existe” e “que chatice que agora não se fala noutra coisa”.

Queremos muito parecer modernos e esquecer que as desigualdades persistem apesar de todas as discussões e movimentações dos que defendem os direitos das mulheres. Persiste a desigualdade salarial, a dificuldade em se chegar a cargos de chefia e de gestão no feminino, a dificuldade das mulheres acederem a cargos políticos e sobretudo de se manterem activas na política.

Acredito que já estão a fazer contas de cabeça e a levantar o sobrolho, e que são capazes de dizer uma mão cheia de mulheres influentes ou que no presente se encontram em cargos de grande responsabilidade no panorama político português.

Sim, é verdade. Sim, é uma mulher que vos escreve não só sobre a desigualdade entre homens e mulheres, mas também activa na política local. Mas acredito que é da experiência de cada um que surge a discussão mais fértil e dinâmica.

A política é ainda hoje um mundo de homens. Vemos mulheres a cumprir as quotas nas bancadas parlamentares. No entanto as intervenções mais “visíveis” continuam a ser feitas por homens. Os próprios órgãos políticos ainda não estão adaptados às diferenças que teimamos em não querer assumir.

Porque dizer não à discriminação é importante, mas mais importante é aceitar a diferença. Sabemos que as mudanças são lentas e que precisam de todos os sectores envolvidos.

Uma sociedade que se diga democrática e respeitadora dos direitos fundamentais terá que ser igualitária com todos independentemente do sexo, da raça e da opinião. Iguais em dignidade e direitos.

Através dos exemplos somos capazes de vestir a pele e de perceber porque se continua a falar em desigualdade. Sabemos que a desigualdade salarial é uma realidade gritante num mundo em que metade da população é feminina. Sabemos que são atribuídos comportamentos às mulheres, tais como, o instinto maternal que não passa de um treino à qual as mulheres estão sujeitas na sua educação. Sabemos que é à mulher que atribuímos a baixa natalidade, porque agora têm acesso às universidades, depois querem fazer carreiras e no meio deste egoísmo fica para trás o papel que lhe era e é atribuído de cuidadora.

Por tudo isto, aceitamos que as Assembleias Municipais se prolonguem até às duas da manhã, esquecendo que as mulheres mães, cuidadoras e trabalhadoras não podem aguentar por muito tempo esta carga de trabalho, deixando de parte a sua vontade de estar activas na sociedade. Ignoramos que as eleitas destes órgãos são convidadas a serem substituídas porque foram mães e estão em fase de amamentação. E assim damos um passo para aceitar a diferença entre homens e mulheres. A CDU propõe nesta fase de discussão de alteração ao Regimento da Assembleia Municipal de Guimarães que seja possível a escolha de amamentar sem que fique impedida de cumprir o compromisso que assumiu com os eleitores. Também o limite de tempo para as reuniões da Assembleia Municipal é positivo não só para os eleitos como para o público que poderá e deverá ser em maior número.

A desigualdade é injusta, antidemocrática e atentatória de direitos fundamentais, a conciliação da vida profissional e pública com a vida privada e familiar é possível. A verdadeira democracia só é possível quando a igualdade for vista de forma natural e indispensável.

Assumir a diferença é o caminho para terminarmos com a desigualdade, tema que não cabe na imposição de caracteres. Tema ao qual voltaremos muitas vezes porque a Educação para a diferença ainda é uma miragem.


Nota: artigo publicado no jornal Duas Caras em 10 de Fevereiro de 2018.