Em Fevereiro de 2017 o sítio electrónico da Junta de Freguesia de Ponte informava a população que acordara com o proprietário da Quinta dos Cascos a cedência ao domínio público, a título gratuito, da área necessária para o reperfilamento da curva existente nesse local. O acordo permitia o recuo do muro e do portão da quinta, bem como demolição da habitação com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães, eliminando um ponto crítico existente na EN101 (Rotunda) e Campelos.

Durante os trabalhos e perante críticas surgidas nas redes sociais expondo alguma preocupação sobre os métodos adoptados na demolição, a Junta de Freguesia de Ponte informou que o dito “muro” apenas recuaria o suficiente para a funcionalidade desejada mas seria reconstruído com a sua forma original, e que a fachada era do século XX.

A obra acabou em Agosto de 2017 e como resultado final ficamos com uma adulteração grosseira da sua fachada, com a eliminação de três janelas existentes à esquerda do portão principal, a deslocação do portão principal, para a esquerda cerca de 2 metros e a demolição parcial dos edifícios interiores que estavam encostados a esta fachada, o que permite concluir não serem verdade os cuidados que o presidente da Junta de Freguesia de Ponte disse ter sobre este assunto, não sendo igualmente verdade que a fachada do edifício demolida seja do século XX.

Coloquei esta questão na minha última reunião de Câmara recebendo como resposta do presidente Domingos Bragança que todas as intervenções municipais são sustentadas com o respectivo projecto e que iria apurar sobre os procedimentos adoptados. Até hoje.

No seguimento da minha interpelação municipal saiu uma reportagem no Jornal de Notícias, da autoria de Delfim Machado, onde se lê que o proprietário disse que a obra tinha o apoio técnico necessário, e teve o acompanhamento de vários arquitectos, um arqueólogo e um designer…

Lamento que a Câmara Municipal de Guimarães enquanto entidade responsável pela obra a tenha identificado como um “muro” mostrando ignorância sobre o estudo e publicação que Maria Adelaide Pereira de Morais fez sobre as Velhas Casas de Guimarães, no Boletim dos Trabalhos Históricos editado pelo Arquivo Alfredo Pimenta onde é evidente que aquilo que é um “muro” para a Câmara se trata afinal do alçado principal do Meio Casal dos Cascos, facilitando uma intervenção desastrosa.

A Freguesia de Ponte na publicação acima citada é mencionada apenas em dois edifícios, o Casal da Ribeira de Cima e o Meio Casal dos Cascos. Com esta intervenção perdeu cerca de metade da originalidade do seu património arquitectónico civil anterior ao seculo XVIII.

Tal com já referi neste mesmo espaço em Maio de 2017 sobre o Teatro Jordão, o Meio Casal dos Cascos tal como originalmente era, deixou de existir, ficaram as suas memórias escritas, fotográficas e outras. Repete-se a passividade e o silêncio de quem supostamente deveria dizer e fazer alguma coisa para o impedir.


Nota: artigo publicado no jornal Reflexo Digital em 16 de Novembro de 2017.