Na Sessão Solene das comemorações dos 45 anos do 25 de Abril na Assembleia Municipal de Guimarães, Miguel Vieira representou o grupo parlamentar da CDU com um discurso sobre a história, o presente e o futuro dos Valores de Abril.

A Revolução de Abril, liderada pelo movimento militar, mas acompanhada, no imediato, pela força decisiva do povo português, libertou Portugal da ditadura, instaurando a democracia e a liberdade que permitiu a profunda transformação da sociedade portuguesa no plano político, económico, social e cultural.

O 25 de Abril de 1974 foi o culminar de uma prolongada e heróica luta de resistência antifascista, de milhares de democratas que, pelo ideal da liberdade e da democracia, foram perseguidos, presos e torturados, e que pagaram o derradeiro preço para por fim a 48 anos de regime fascista que subjugou e oprimiu duramente o povo português.

Ao contrário do que alguns querem fazer crer, com um discurso saudosista que tenta deturpar a realidade negra da ditadura, de facto, o fascismo era miséria, fome, trabalho infantil, colonialismo, repressão, guerra com milhares de mortos e feridos, ódio, degradantes condições de vida, de saúde e de habitação, elitismo, analfabetismo, ensino reservado para uns poucos e condicionado para a grande maioria da população, salários de miséria, subordinação dos interesses do povo, alienação do interesse nacional aos interesses capitalistas.

Há quatro décadas e meia, pela resistência e luta dos trabalhadores e do povo português, foi conquistada a liberdade de expressão, o direito à manifestação, o direito à greve. Os trabalhadores e as classes desfavorecidas passaram a ter direito à habitação, à saúde, à educação, à segurança social, a ter um emprego digno, ter férias, ter um décimo terceiro mês e um salário mínimo.

Apesar de terem sido conquistados inúmeros direitos e melhoradas as condições de vida, nunca deixaram de existir forças reaccionárias que procuraram limitar ou mesmo destruir todas as liberdades e garantias consagradas na Constituição da República Portuguesa. O grande capital nunca desistiu de recuperar o poder perdido e, com a ajuda da agressão e traição de uns quantos oportunistas, conseguiram:

  • Conseguiram a privatização de empresas e sectores estratégicos da economia nacional, hoje nas mãos do capital estrangeiro;
  • Conseguiram a destruição da produção nacional, criando uma dependência alimentar externa;
  • Conseguiram a degradação dos serviços públicos;
  • Conseguiram a compressão dos salários, através da redução dos direitos laborais que conduziram à precariedade;
  • Conseguiram a contenção da distribuição da riqueza, aumentando a desigualdade e a injustiça social;
  • Conseguiram a subjugação dos interesses nacionais às estruturas externas, nomeadamente, à União Europeia.

Nos 45 anos da Revolução de Abril, é necessário afirmar que a democracia portuguesa está refém de uma teia de influências que manipula o pensamento das massas. Neste, como nos anos anteriores, através de uma comunicação social cada vez mais controlada e subserviente, mas também pelas redes sociais, é feita a tentativa de reescrever a História, branqueando a natureza terrorista da ditadura fascista, silenciando a luta heróica dos trabalhadores e do povo português, negando e deturpando o verdadeiro significado de Abril.

Todos os dias, a toda a hora, há um bombardeamento ideológico que procura moldar o pensamento de cada um a favor dos interesses capitalistas, incentivando o individualismo, o consumismo, a futilidade, o egoísmo, a indiferença. Paralelamente, através de doses maciças de entretenimento, a população é induzida num estado letárgico, ficando incapaz de raciocinar sobre os problemas do país, ficando incapaz de reivindicar a melhoria das condições de vida e o seu direito a um futuro em Portugal.

Não é do interesse de Portugal e do povo português que, no prosseguimento da destruição das conquistas e valores de Abril, tenhamos no futuro um regime político de liberdades limitadas e reprimidas, e um poder de cariz autoritário. A economia nacional dominada e submetida aos interesses egoístas dos grupos económicos. A exploração agravada. A liquidação de direitos dos trabalhadores e de direitos sociais. O contínuo agravamento da disparidade social. A regressão cultural e a perda de elementos constitutivos da própria soberania e independência.

Neste dia, nos restantes dias, pelo regime democrático, pelos valores consagrados na constituição, inspirados pelo exemplo de Abril, devemos lutar contra todas as ameaças antidemocráticas, nomeadamente, a corrupção, o populismo, o fascismo encapotado, a demagogia, as fake news, contrapondo com a afirmação dos Valores de Abril, através de uma política patriótica e de esquerda capaz de assegurar a soberania e independência, e o desenvolvimento económico e social de Portugal.

Hoje, mais do que nunca…

Todos os democratas que repudiam a exploração e a opressão, com a sua vontade, a sua voz e a sua luta, devem honrar e proteger o legado conquistado com o sangue de muitos patriotas, informando e esclarecendo todas as gerações sobre a realidade obscura da ditadura fascista, do papel da revolução na conquista de direitos e liberdades, para que, a democracia e a liberdade, a saúde e a educação, o progresso e a justiça social, o ambiente, e o interesse soberano do povo português, sejam elementos integrantes e inalienáveis da sociedade portuguesa, tanto no presente, como no futuro de Portugal.

Viva a Liberdade!

Viva Portugal!