Todos os dias esperamos correio, esperamos as novidades, as encomendas, as notícias de familiares que vivem longe, postais dos amigos que viajam pelo mundo, documentos de trabalho e até, ainda que sem grande entusiasmo, as cartas que trazem as contas para pagar.

Habituámo-nos a cumprimentar o carteiro e a esperá-lo à porta, porque, mais minuto menos minuto, passava sempre à mesma hora. Por isso, sabemos que o carteiro é fiel depositário, em determinada altura, da vida de cada um de nós. Sabe os números das portas, o nome de quem lá vive e sabe que as encomendas podem ser deixadas ao vizinho pois é essa a indicação que lhe deram.

Os CTT – Correios de Portugal foram uma instituição de respeito, de proximidade e de confiança. Há 500 anos a distribuir correio no território português, foram-se adaptando à evolução.

O Governo PSD/CDS privatizou os CTT, sem que se perceba qual a razão, porque, para além de prestarem um excelente serviço postal, contribuíam todos os anos com receitas para o Estado.

Depois da privatização, centenas de estações de correio encerraram, foi delapidado o património dos CTT com a venda de vários e importantes edifícios, centenas de receptáculos postais retirados da via pública, despediram trabalhadores, aumentaram os vínculos precários, os tempos de espera para atendimento aumentaram substancialmente, faltou dinheiro disponível nas estações para pagamento de pensões e de outras prestações sociais, generalizaram-se as situações em que o correio deixou de ser distribuído diariamente e aumentaram localidades, sobretudo no interior do País, onde o carteiro passa uma vez por semana.

Aliado à degradação do serviço somou-se o aumento das tarifas, que, recorde-se, desde a privatização já subiram mais de 50%. No presente, os cidadãos pagam mais e a oferta do serviço é menor, ao mesmo tempo que os trabalhadores vêem as suas condições de trabalho sofrer um grande retrocesso.

Os lucros de milhões, esses mantém-se, mas são embolsados agora por aqueles a quem PSD e CDS ofereceram essa iguaria! E estão a ser potenciados com a criação do Banco CTT, para o qual estão canalizados agora todos os meios e investimentos.

Assim se percebem as razões da privatização.

Esta semana saiu uma notícia na comunicação social que dava conta do retrocesso dos serviços prestados pelos CTT desde a privatização. A ANACOM, assumindo o número elevado de reclamações e interpelações que chegaram, decidiu efectuar diversas acções de fiscalização a postos de correios, que revelaram que, nos locais onde os CTT encerraram estações e subcontrataram a terceiros, o serviço perdeu muita qualidade, sem que forneçam todos os serviços que são prestados nas anteriores estações.
Também através da comunicação social, desta vez a local, soubemos que no dia 4 de Janeiro os Posto dos CTT de Pevidém foi assaltado e no dia 9 de Janeiro também houve uma tentativa de assalto na Estação do CTT em Guimarães e que com a ajuda das pessoas que estavam presentes no local o assalto não se consumou.

Por isso, para além do serviço ter perdido qualidade aquando do fecho das estações dos CTT também se vê agora confrontado com a falta de segurança. Imaginem qual poderá ser a segurança em postos que se instalaram em juntas de freguesia, ou em quiosques ou em mercearias. Quem se responsabilizará se num destes espaços acontecer um assalto e forem roubados bens que são dos CTT? Quem se responsabilizará se os dados pessoais forem revelados por estes terceiros que a quem foi subcontratado o serviço e não assinou nenhum termo de sigilo?

A única forma de travar esta agressão contra o serviço postal, de recuperar o respeito e a confiança das populações e dos trabalhadores dos CTT, é o regresso dos mesmos à esfera pública. O Estado deve voltar a deter o controlo e a gestão do serviço postal.

Mas se PSD e CDS foram os obreiros da privatização, o PS é agora o seu cimento, pois tem rejeitado as propostas apresentadas na Assembleia da República nesse sentido. A luta continua para que o carteiro volte a passar.


Nota: artigo publicado no jornal Duas Caras em 12 de Janeiro de 2019.